Desafiatlux
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Ocupou o 2° andar do prédio do SESC da Esquina, região central de Curitiba – de 15 de agosto a 30 de setembro de 2005 – a iniciativa do grupo de artistas Orquestra Organismo propunha o agenciamento de trocas entre diversos artistas e coletivos.


Ciclo de vida


O Desafiatlux adotou um cronograma semanal de ações temáticas a fim de explorar metaforicamente cada etapa do ciclo de vida de um organismo. Os rituais propunham identificações afetivas entre os participantes, proposições inéditas de forma continuada.

Nascimento
Às 19 horas do dia 15 de agosto de 2005 (segunda-­feira) ­– Neste encontro de abertura foi estabelecido o ritual da pulsão de vida do Organismo e sua conexão com a sociedade. Como celebração, os presentes revelaram suas primeiras impressões diante da ocupação, houve produção de imagens e inúmeras trocas simbólicas.

Batismo
Dia 19 de agosto de 2005 (sexta-­feira) – proposição de sincretismo de diversos cultos de diferentes crenças e religiões através de trocas simbólicas entre coletivos e indivíduos. Algumas das manifestações ocorridas nesta data permearam pelo Umbanda, Catolicismo, Santo Daime, Igreja da Graça, Hare Krishna, Islamismo, entre outras, em contraposição o laicicismo, ocorreram no local.

Perda da virgindade
Dia 26 de agosto de 2005 (sexta­-feira) – Neste dia iniciaram-­se ações fora do espaço do SESC. A ação urbana intitulada Pipoca, de concepção de Octávio Camargo, deu­-se em pleno calçadão da Rua das Flores ao entardecer, consistiu em circular ao redor do chafariz da XV (localizado em frente ao extinto Cine Ritz) jogando esporadicamente estalinhos de pólvora no chão gerando sons de estouro, a ação duraria até que todos as “pipocas” acabassem, houve a participação de um grupo aproximado de 20 voluntários. Retornando ao SESC discursou­-se sobre desconstruções de gênero e escolha, troca de genes e acasalamento, instalou­-se a campainha do toque virginal ao lado da porta trancada do atelier de artes e ofertou­-se tubos de ensaio para a coleta de esperma.

Formatura
Dia 02 de setembro de 2005 (sexta-­feira) – O tema sugeriu a reflexão sobre arte e política, ativismo cultural, capital, propriedade, mercado, papel do artista, sistema de arte. Houve a exposição eletrônica de cartoons políticos do artista Solda. O encontro destacou-­se pelas invocações, cantos, promessas e oferendas manifestados sincronicamente com o Polavra, de concepção de Sávio Nienkötter e Nils Skare, encontro poético­-literário com a intervenção de ferramentas eletrônicas de software­ livre. As performances foram captadas em arquivos de áudio e vídeo para posterior edição e manipulação. As pessoas estavam livres para participarem através de leituras poéticas, textos, improvisos, atuações, tocando, dançando, fotografando, enfim, agindo conforme desejassem.

Casamento
Dia 09 de setembro de 2005 (sexta-­feira) – Sobre o fundo musical da Marcha Nupcial as ações voltaram-­se para a aliança de clãs (patriarcado e matriarcado, o estruturalismo e parentesco) e a independência do Brasil.

Reprodução
Dia 16 de setembro de 2005 (sexta-­feira) –­ Discussão da problemática sobre a identidade Organismo e seus futuros avatares (destino e impotência). Criou-­se um ritual de popularização (banalização e profanação) do mito pela cidade, neste dia procurou­-se documentar detalhadamente a instalação.

Julgamento
Dia 23 de setembro de 2005 (sexta-­feira) –­ Como um tribunal de júri, houve o ritual de julgamento sobre o papel do Organismo na arte contemporânea, que recebeu a pena de jejum até a morte. Foi queimado um palito de fósforo que havia sido prendido na parede desde o dia do nascimento e guardado dentro de sua caixa. O Sudário, pano que havia sofrido intervenções durante todo o processo, foi enrolado e guardado. Aconteceu também outra edição do Polavra. Este foi o último encontro no SESC da Esquina, após esta data as portas da sala foram fechadas e houve o desmonte de toda a instalação.

Morte
Dia 30 de setembro de 2005 (sexta­-feira) ­– O derradeiro ritual ocorreu no Cemitério Água Verde, sua escolha deu­se ao fato de nele existir um muro que o divide em dois, de um lado a parte católica e do outro a israelita. Assim, a ação efetivou-­se em dois atos, a primeira em pleno dia, às 12h00 do lado de dentro, a segunda aconteceu durante a noite, às 19h40, do lado de fora.
No primeiro ato visitou­-se o túmulo de Paulo Leminski, onde foi cantada a ladainha de Donaldo Shüler, tradutor do Finnegans Wake para o português:
Par tido? Eu o teria dito! Macool, porra, por quiski ocê murreu?
Foi de sede em terça merdinha? Chopes aos choupos no do Finnado
veludo velório, estrelas de tod anação, a prostração na
consternação e a duodizimamente profusiva plethora de
ululação. Havia à porfia pedreiros, casados, delgados, violeiros,
marinheiros, cinemen, de tudo. E todos giravam na mais alto­
falante showialidade. Agogue e Magogue rodeavam o grogue.
para a continuação da celebração até à de Gengiscão
exterminação! Alguns no tam­tam do tamborim, e mais, cancan no pranto.
pra cima no batuque pra baixo no muque . Tá duro, mas soberbo,
o Priapo d ́Olin da! Se houve cabra alegre no tablado, era o Finnado. Afila
em cone a pipa de pedra, que pingue cevada! Adonde neste bosta y mundo
escuitarás loisa igual? Ir de pros fundos e dar desta à
fé deles? Acomodaram o Salmão em seu derradeiro leito. Com um abocálipse
de finnisky aos pés. E uma genesíaca barrica da loirespumante à cabeça.
Té que o tutal do fluido flua no duotal do fluminado, Ué! (JOYCE, 2003)

Logo após, direcionaram até o muro que divide o cemitério e deixaram uma caneta em cima do muro declamando:
Pela paz de todos os povos na vida e a morte. Vai ficar aqui a caneta em cima deste muro, em ato simbólico a todos aqueles que escreveram, disseram e tentaram fazer algo melhor da sua vida, do que simplesmente usar os dentes com os quais nasceram... fica aqui neste cemitério então (e os mortos sabem disso melhor do que ninguém) de que nada adiantam muros... e que não é possível dividir...

No segundo ato foi levado o Sudário do Organismo (pano) e a caixa do finado fósforo (com ele dentro) referente ao dia do julgamento. Pela calçada escolheu o exato ponto da divisa dos cemitérios, calculou­-se uma linha imaginária que segue o muro até a calçada onde havia um poste e um gramado. Neste local foi pendurado no arame farpado que se sobrepõe ao muro uma placa de rede, cavou-­se um buraco 7 dedos do chão, onde foi enterrado o palito de fósforo e por fim, enrolou-­se o Sudário no poste, cortou­-se sua assinatura e lá permaneceu.

Que todos os muros caiam!

Finn de Desafiatlux.